O sentido da história está para alem da própria história, uma vez que se reporta para a eternidade. É justamente essa diferença entre a história concreta e a eternidade que condiciona a própria história para além dela mesma. Ademais, a história se fundamenta exatamente nesse mesmo plano que a sustenta enquanto origem e finalidade, pois o início da existência é um acontecimento gerado por algo que está antes da existência, do mesmo modo que a história surge mediante algo anterior a ela mesma.
Assim, se a meta história e a meta existência fundam a história e a existência, respectivamente, precisamos entender qual o hiato entre a história e a existência. E então eis aí o ponto em que encontramos o ser humano.
O homem é a condição de existência e de história. O homem, esse animal que nasce coma vida e atado a ela, que dela não pode eleger por própria vontade, senão que é concomitante a ela desde o momento em que advém a esse mundo. É desse homem que tiramos a história e a existência, pois é da vida dele entre as coisas e nas coisas que ex-surge a própria história. O tempo, assim, é apenas uma manifestação existencial simbólica da eternidade entre nós, de maneira que nossa mente capta, através do temo, uma imagem distorcida do significado da eternidade, a quem só conheceremos após transpassarmos esse penoso caminho da vida temporal. Voltando, cabe referir o homem, esse que vive entre e nas coisas.
O homem é um ser tendente e dinâmico. Faz da sua vida um espaço de tempo para, através de sacrifícios e ações, buscar a santidade. Porém, esse caminho da santidade é um caminho que convive com a bestialidade, isto é, o pecado original que reside na natureza mesma do homem e que o acompanha nessa existência. De um certo modo, o homem trava consigo mesmo uma luta interna, contra seus próprios pecados e contra suas paixões. Tal como Platão nos disse, o espírito que visita esse mundo veio de uma luta travada lá de cima, em que a razão lutou severamente contra a paixão, mas que por um descuido acabou por cair aqui entre nós. Ora, essa maneira simbólica de tratar da alma nos dá uma luz sobre o que está arraigado no homem e que o leva a desviar-se de seu verdadeiro sentido de ser. As paixões humanas são os obstáculos para a santidade, do qual as virtudes são o melhor caminho.
Se assim é, a convivência do homem entre as coisas da realidade é uma convivência paradoxal, em que a própria humanidade do homem aparece como uma carga pesada para a alma, que precisa lutar e lutar e lutar contra as naturezas imanentistas desse mundo.
O homem está atado a existência. Dela, não pode sair senão sob ordens que independem da vontade dele mesmo. É esse o primeiro passo para que o sentido da existência seja verdadeiramente pleno, atualizado, que se manifeste concretamente na realidade tendo por base algo que, pela invisibilidade, exige do homem uma fé realmente impressionante. Nesse sentido, a cada momento da existência humana os desafios serão superados por uma substituição da vontade humana pela vontade de Deus, daquela voz que – quando queremos- escutamos em nosso coração, aquela mesma voz que Sócrates ouvia quando vivia as desgraças de sua Atenas.
A prisão concreta do homem na história é um chamado. Um chamado para irmos ao encontro de nosso Mestre. E para tal necessitamos dar sentido ao nosso viver. E esse sentido é exatamente a relação que travamos entre nós e a Eternidade, abrindo nossa alma para receber, de bom agrado, a graça do Espírito Santo.
Só quando “enxergamos” isso com o “coração”, é que começamos a abdicar das naturezas imanentes desse mundo, originadas no pecado e na desgraça, para alçarmos o vôo para a plenitude.
Ora, é aí que nos tornamos pessoa. A pessoalidade do ser humano não é algo plenamente desenvolvido no homem, mas é algo que pulsa em potência na constituição de nosso ser. Nos tornamos pessoa quando nos devotamos a querer, cada vez mais, parecer-nos a imagem e semelhança d´Ele. Ora, pessoa humana, a rigor, não existe em ato puro. A única pessoa que existiu em ato foi Jesus Cristo, ou seja, o próprio Deus.
Acontece que a nossa convivência na realidade é um teste de fogo para caminharmos com Ele, pois na convivência testamos as dificuldades e nos colocamos à prova para o caminho da salvação.
Quão idiota sou de não perceber isso sempre e deixar os pecados tomar conta de mim. Deixo as coisas desse mundo me encampar sem levantar o escudo da alma para dizer Não à elas. As coisas desse mundo nos atrapalham, mas elas são necessárias, pois é n´elas que Deus nos quer santos, ou melhor, “pessoas”. E nessa convivência nossa fé é como um móbil, que vai e vem, que vai e vem, e que nunca se firma se não exercitarmos todas as horas de nosso dia.
Como sou fraco quando não converso com Cristo. Deixo-me levar pelas vicissitudes de coisas que me elevam nas paixões, mas que por dentro me destroem por completo. E o faço por que não escuto o Meu Pai, como um filho mimado, adolescente, pobre de espírito e, sobretudo, infeliz. Preciso mais de Ti, Senhor. E quanto mais te Tenho, mais Te quero ó Pai Eterno.
Como diz o meu querido Santo, Agostinho, Eu sei que sou, mas não sei por que sou. A resposta está com o Senhor. Preciso estar mais contigo Pai, para tentar compreender isso melhor cada vez mais. Ademais, eu também sei que o Senhor está aqui dentro de mim, como um Mistério. E que condiciona toda a minha existência e todo o meu conhecimento sobre a realidade. É como se a sua graça e o seu amor me ligasse ao ser e me permitisse conhece-lo de modo objetivo, pois quanto mais conheço melhor, mais objetividade trago para minha vida. A minha inteligência limitada é condicionada pela minha alma, isto é, pela minha memória que é a sua potência. Ora, quanto mais recordo de Ti, ó Pai, mais conheço a realidade e mais posso servi-Lo.
Senhor, Meu Senhor, seja misericordioso com meu conhecimento, me permitindo luzes para encontrA-lo naquilo que conheço, pois quando apreendo sei que para aprender necessito de minha alma aberta, para que a memória não me traia. A reminiscência da realidade em mim é condicionada pelo amor que tenho pelo Senhor. Por isso, em tudo o que eu conheço há também um mistério, tal como a sua natureza Trina é, aos meus olhos, um mistério. Ora, assim, como meu amor por Ti é ridículo diante do Teu amor por mim, também em tudo que eu conheço a minha nôus é absolutamente ridícula, pois me falta amor pela realidade. Esse amor faltante não me permite conhecer melhor. A estrutura da realidade, que é o Conhecer e o Ser, não estão bem resolvidas em mim Pai. Por isso, daí-me graça e misericórdia, para que nesse mundo eu sirva de instrumento para tua vontade. Sendo isso, estarei mais perto de ti e serei mais pessoa, à tua imagem e semelhança. Que minha subjetividade se “identifique” com a objetividade do Ser.
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