Desde Descartes o método da filosofia ocidental passou a cortar os laços com a realidade objetiva e lançou-se para um reducionismo que destruiu a própria atividade verdadeiramente filosófica enquanto tal. Ocorre que, na guerra entre racionalistas e empiristas, a redução do método filosófico ou ao mero psicologismo ou então ao método próprio das ciências experimentais levou a filosofia moderna a estabelecer um hiato entre a tradição filosófica da verdadeira filosofia e o pensamento ocidental pós medieval. É que, se para a maior parte do pensamento clássico tradicional ocidental, o objeto da filosofia é a própria Verdade, o próprio Ser, bem como os seus modos de ser e de realidade. Assim, na filosofia responsável de Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás entre outros, havia uma identidade entre os níveis e a verdade do conhecimento, os níveis e a verdade do objeto real e a verdade existencial da conduta do filósofo em tentar, o quanto possível, aproximar-se da verdade, admitindo-se nesse caminho toda a sua imperfeição e contingência frente a Verdade, sempre inatingível na totalidade mas atingível parcialmente. Ademais, a atividade do filósofo na busca da verdade exige do mesmo uma dose extraordinária de sinceridade, responsabilidade e humildade, pois que sua tarefa é absolutamente sui generis em relação as demais tarefas práticas da vida humana, pois sua preocupação é transformar a filodoxa em filosofia, correlacionando o seu interior com o que há de externo a si, em suma, apreender o objeto real respeitando sua contingencialidade enquanto modo de ser. A existência do filósofo, para os antigos, era entendida como uma existência inteiramente virtuosa, na medida em que a alma do filósofo é a psyque de alguém que se abre para a graça divina e que, recebendo Deus diante de si, pode frear suas paixões e observar a realidade com mais precisão.
Assim, ser filósofo é, de acordo com a tradição, exercer uma batalha interna contra as paixões como meio de captar o objeto real proporcionado diante de si. Verdade do conhecimento mediada pela verdade da conduta e pela verdade objetiva.
O pensamento moderno, desde Descartes e posteriores, rompe com esse modo de conceber a atividade filosófica e reduz-la ao psicologismo puro ou ao teste experimental das ciências naturais. A saber: a filosofia passa a ser entendida como uma tentativa de explicar fenômenos contingentes. Posteriormente, o idealismo aparece como reação ao imanentismo de toda a filosofia. E toda essa empreendida contrária também padeceu do mesmo erro reducionista, uma vez que o idealismo tanto em Kant, Fichte (idealismo subjetivo), Schelling (idealismo objetivo), mas sobretudo em Kant, não abandonou o reducionismo racionalista que desde Descartes havia contaminado toda a atividade filosófica.
Kant e seus pósteros reduzem a metafísica e a lógica (leis matemáticas) a uma espécie de psicologismo transcendental. Ou seja, a metafísica e a transcendência não existem enquanto entidades objetivas, mas apenas e tão somente na mentalidade subjetiva de cada qual. A rigor: não existe realidade, senão nossa própria realidade que se joga, como num insight, para o plano transcendente. Ora, se a transcendência só existe em mim, segundo Kant, “eu” sou o fundamento de toda a realidade, enquanto o plano objetivo aparece como desastre caótico.
Kant é o filósofo da modernidade. Ele é o provocador dessa ruptura incomensurável da sua época com a tradição. Descartes é o motor e Kant, o seu instrumento. Descartes é o psicologista enquanto Kant o trancendentalista, de um mesmo aporte que é o cogito mental.
Se a modernidade é uma época em que o subjetivismo aparece como transcendental, uma era na qual a realidade e o nosso conhecimento se encontram e se elevam para um plano que só o Kant mesmo sabe, não haveria mais saída para a filosofia senão contentar-se com a pobreza metodológica do positivismo ou então com a alternativa de um idealismo subjetivista.
A escravidão da filosofia e a pobreza do historicismo fizeram do século XIX uma era de catástrofe para o pensamento ocidental, ao mesmo tempo em que fez ressurgir um abraço entre a tradição filosófica e uma nova saída para a filosofia: a fenomenologia de Edmund Husserl e a neoescolástica.
Husserl dá uma guinada ao abandonar a escravidão psicologista e subjetivista de seus anteriores e recorre ao objetivismo das formas transcendentais. Sua atitude marcou uma ressurreição da filosofia, por intermédio de sua metafísica. A metafísica Husserliana foi como que um giro até o objeto, desapegando-se de toda a epidemia racionalista que, como toda a loucura, parece sedutora para as mentalidades mais contingentes.
A filosofia de Husserl restabelece o compromisso da filosofia não com a doxa psicologista, mas com a verdade, mostrando que o empreendimento de toda a filosofia deve ser transformar-se em uma ciência puramente estrita, voltada para as realidades das objetividades ideais em seu sentido essencial. Esse corte entre a transcendentalidade Kantiana subjetivista e a transcendência das formas ideais objetivas de Husserl faz com a que a filosofia volte a tratar da realidade como uma idealidade voltada para a essência, isto é, em considerar humildemente a verdade não como um aspecto puramente humano ou puramente psicológico, mas como a verdade em suas circunstâncias.
Esse resgate de Husserl para com a realidade transcendental além de por o pensamento moderno em seu devido lugar, restaurou uma metafísica independente da teoria do conhecimento, voltada para si em suas entidades essenciais. E o caminho de Husserl até lá foi seguramente a sua formação de matemático. A matemática, com Husserl, deixou de seu um atributo imanente da mente psicológica e da física, senão que foi recolocada no seu plano matriz: a eternidade enquanto espaço da transcendência. Por isso, com Husserl, a filosofia é chegada por meio da matemática, como se tratasse de entidades ideais captadas pelo intelecto humano sem a interferência dos fatos contingentes e empíricos.
Aparentemente, nos parece que a guinada radical de Husserl rumo ao objeto foi como que uma necessidade frente ao radical subjetivismo de seu tempo. Ao psicologismo, Husserl contrapôs a essência dos entes. Ao imanentismo, um papel de destaque para a realidade transcendente. Ao relativismo, uma filosofia absoluta. Ao modernismo, uma ciência rigorosa e pura, sem a necessária inferência humana para sua existência e constituição. Em suma, com Husserl a unidade mesma da filosofia, como ele mesmo nos diz em sua Filosofia como ciência estrita, estabelece a “exigência de unificação do saber mediante uma explicação racional e sistemática da totalidade da experiência”, bem como pretende a luz da moral religiosa, “de formar o homem e convertê-lo em amo de seu destino, configurando desde seu próprio interior o curso inteiro de sua existência pessoal”.
Com esse rigorismo científico, Husserl resgata a tripé da tradição filosófica clássica, qual seja a verdade do conhecimento, a verdade da conduta e a verdade do objeto, como se a atividade filosófica estivesse inteiramente conectada nesses pontos, a fim de tentar identificar a verdade interna do filósofo (sua alma), a verdade externa ao filósofo (modo de ser da verdade) e a verdade de sua captação do objeto real (apreensão que se transforma em memória). A filosofia, enquanto atividade de amor e compreensão da Verdade em seus modos de ser foi absolutamente visualizada por Husserl como um trabalho no campo do idealismo objetivo das essências em suas formas puras.
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