quinta-feira, 27 de março de 2008

O homem na cosmovisão grega

A vida política grega na época anterior ao nascimento de Cristo era marcada pela preocupação sincera das relações entre a existência política da comunidade e as forças cósmicas que moviam o universo. De fato, as relações entre a política e a mitologia não eram relações de mera tangencialidade, senão de fundamentação e de sustentação. A concepção platônica de dependência do mundo sensível para com o plano das idéias não era uma hipótese, mas uma “verdade cósmica e objetiva” incontestável. Atualmente, a ciência política e a filosofia contemporâneas insistem em tentar entender os gregos a partir do campo de possibilidades, sujeitando a antiguidade ao status de ficção. Erro terrível.

Para os gregos, as forças cósmicas transcendentes constituíam não apenas o campo constitutivo de fundamentação para a existência empírica, senão que era a própria “verdade objetiva” do mundo. Assim, tudo o que derivasse da imanência tinha como fundamento correspondente a transcendência. E os gregos sabiam perfeitamente que a existência concreta dependia da transcendência para de fato existir, isso é, dinamizar-se e permanecer ao mesmo tempo.

Ora, nesse sentido, partiram para o entendimento da realidade existencial. Eis que aí o ponto ais radicalmente arraigado na existência é justamente o homem. Para começar a compreender a realidade, é fundamental começar desde um ponto de partida. Eis que o ponto de partida é justamente quem compreende, como compreende e de que condição passa a compreender. Observando a realidade da existência, os gregos percebiam que os homens distinguiam-se dos demais seres concretos justamente pela capacidade de compreender e de interagir compreendendo. Fácil. Os seres vivos vegetais vivem, as não interagem. Os animais interagem, mas sem compreensão de fora do ciclo. E os homens? Esses são animais que interagem, ms que conseguem compreender de fora do ciclo e, por isso, interagem compreendendo. Por isso, diferentemente dos demais animais, os homens interagem através do logos, da palavra racional, de maneira a compreender a realidade e o mundo objetivo.

Ora, para a constituição de um mundo público, em que homens interagem compreendendo o processo de interação no mesmo momento em que estão interagindo só pode ocorrer quando esses mesmos homens mostram-se capazes, por vias racionais, de interagirem sem recorrer aos seus instintos. Essa diferença substancial entre os animais e os animais humanos é a condição mesma da existência concreta do mundo. O cosmos, poderia existir sem o homem, mas não seria compreendido. Ora, para compreende-lo, indispensável é a inteligência, a saber, a captação e apreensão da realidade sem o intermédio das paixões e instintos. Se o homem, então usa o logos para comunicar e conviver, também o usa para manter a existência mesma da compreensão do cosmos, de maneira que esse mundo possa continuar sendo conhecido e transmitido intelectualmente ao longo das gerações. Daí que a existência humana é a existência mesma dentro de uma comunidade homens, todos voltados para o uso do logos e para a permanência da comunidade, através da palavra.

A palavra viva e a existência humana viva, sendo indissociável o logos (inteligência) e o próprio existir do homem. Então, fica claro que a inteligência precisa conceber um ambiente onde possa se desenvolver, criar, traditar e permanecer, através da cultura. Esse ambiente indissociável do homem é a comunidade. A condição do homem daí derivada, a “política”.

2 comentários:

Leonardo disse...

Os gregos conseguiam visualizar claramente os conceitos do QI e do QE?

É uma discussão interessantissima, pois é uma coisa que se perdeu no tempo e nos dias atuais, tentamos resgatar.

Abraços!

MODENA disse...

Marcus, gostei do seu texto, também estudo muito esta temática e acredito que a nossa suposta inteligência na pós modernidade ainda não atingiu a capacidade de enxergar de forma global o mundo contextualizado, ainda que estejamos em tempos de globalização, a nossa capacidade reflexiva ainda está defasada, talvez, por faltar o pressuposto principal...o conhecimento de si mesmo como partida para o conhecimento das outras coisas...