quinta-feira, 7 de agosto de 2008

OS SÍMBOLOS E A TOTALIDADE DA EXISTÊNCIA: O SÍMBOLO DA CRUZ E A REPRESENTAÇÃO DO LOGOS DIVINO

Meus amigos: nos últimos tempos, um aspecto da existência tem me chamado a atenção: trata-se da realidade dos símbolos. E gostaria de dividir minhas preocupações contigo caro leitor e, se possível, aceitar sugestões tuas para tal estudo. Tenho entendido que em todas as civilizações a linguagem, a experiência e os símbolos são partes constitutivas do modo de ser e da unidade de ser. A realidade integra em uma unidade aspectos que se distinguem enquanto modos de ser mas que, concomitantemente, se ligam através de um mesmo fundamento. O uno e o múltiplo são partes constitutivas e integrantes de uma mesma realidade no qual a experiência e a inteligência se unem através da linguagem e da existência. A saber: estamos em uma luta interna e externa contra as oposições da realidade que habitam dentro de nós e que se manifestam em uma existência externa dinâmica e complexa.

Na verdade, estamos em busca da verdade através da superação de um campo de possibilidades que, em sendo atravessado, dá lugar ao campo da unidade e da necessidade, isto é, daquela parte da realidade que traduzimos como sendo o próprio ser em sua simplicidade e formalidade.

Eis aí a methasis, a unidade transcendente da realidade que a fundamenta, que a justifica e a constitui. A estrutura da realidade é dividida em dois níveis iniciais: o nível da imanência e o nível da transcendência. Entre as duas partes do cosmos há uma relação de simbiose. E tal existência do Ser se transporta para a inteligência humana mediante uma ascendência sistemática e organizada dos modos de compreensão da realidade que se traduzem em modos descendentes de possibilidade e de graça da transcendência para com a imanência. Entre a razão humana enquanto ato de vontade em direção à totalidade e a fé na existência criadora do Ser que concebe e possibilita os diversos modos de existir em tudo e em todos, há uma articulação na própria estrutura real que se mostra complexa, mas que naturalmente é simples. Claro que estamos tratando da unidade e da multiplicidade do Ser em si mesmo e em seus diversos modos de existir.

Porém, quando vamos para o campo da compreensibilidade humana, nos deparamos com todas as dificuldades que a própria realidade nos coloca, em uma tentativa de entendimento que exige de nós uma dedicação de corpo e alma para entrarmos nos mistérios profundos do Ser.

E o desvelamento desse mistério nos leva, necessariamente, para um campo onde a linguagem verbal comum e opinativa não nos permite expressá-lo e nem tampouco compreendê-lo. É importante que, quando buscamos o nível de conhecimento que ultrapassa as barreiras dos diversos modos da existência e nos leva para unidade essencial do Ser, procuremos conceber não aspectos contingentes, mas pontos que expressem ou permitam expressar a totalidade da realidade manifesta em uma unidade de sentido. Estamos falando da experiência e da transcendência como partes da constituição da realidade.

O campo da experiência é o lugar comum em que se estabelece uma conexão entre o interno e o externo, entre a alma e a existência, entre as contrariedades internas de cada homem e as oposições externas de uma vida de sentido, de forma a conectar todas essas lutas em um todo de significados. Eis aí porque temos, em nossa existência individual e relacional, um campo horizontal e vertical de possibilidades. No campo horizontal, nos deparamos com nossa existência em comunidade, e no campo vertical, em nossa tentativa de ascese, a saber, nossa busca do Ser e nos modos de o fazê-lo.

Como somos seres com existências incompletas e opositivas, nossa tentativa de ascender ao Ser pode ser sempre inglória, pois quando o tentamos nossas capacidades de fato se realizam ou se aniquilam. Porém, sabemos que temos a chance e que nossas potencialidades são dons gratuitos de Deus para que nós realizemos uma busca de sentido n´Ele.

Para tanto, necessitamos de uma via que nos permita atravessar as fronteiras existenciais e, por uma linguagem própria, alcancemos ao Ser em sua unidade. Assim, faz necessário que utilizemos conceitos e manifestações universais que tenham permanência e imutabilidade e que sejam compreensíveis pela experiência. Ou melhor, formas que mostrem a plena representação da realidade em uma imagem ou signo. Trata-se do Símbolo.

Os símbolos são representações da realidade que se traduzem em formas que manifestam uma unidade de sentido que manifesta a existência e a inteligência. Eles estabelecem uma significação da unidade que permanece atada aos diversos modos de existir e, nessa multiplicidade, atuam como caminhos de acesso aos mistérios e aos fundamentos de todas as civilizações.

Os símbolos são, assim, representações de toda a experiência e de toda a existência dos homens concretos de uma sociedade política. E, dessa forma, encerram uma linguagem própria, específica, que se difere da linguagem verbal e que se constitui como único caminho possível para o campo da unidade transcendente. Por exemplo: quando vemos a cruz, logo percebemos que por trás dela Nosso Senhor Jesus expiou nossos pecados do mundo e que derramou seu sangue para tanto. Além disso, também sabemos que a cruz representou a morte simbólica de Jesus e sua Ressurreição. Sabemos ainda que a cruz revela o projeto de Deus para nossa salvação mediante o envio do cordeiro, seu Filho que se oferece em holocausto por nós. Vemos aí que a cruz projeta uma justificativa escatológica para nossa existência em Cristo Jesus. Ademais, a cruz também representa o clímax da vida de Jesus, pois é o símbolo de seu sentido de vida nessa terra, já que como Deus, veio para cá com o fim de se dar à nós, isto é, permitir que nós O imitemos e O seguimos. A cruz, aí, representa a experiência de Deus entre nós, que embora se dê a todo tempo dentro de nós e fora nós concomitantemente (pelo Espírito Santo), representa significativamente a experiência da paixão na vida de Jesus.

Desse exemplo, podemos ver que o símbolo da cruz representa a existência e a experiência, manifestando uma forma que congrega a totalidade da realidade de Deus em nós. Cada um de nós é um membro do corpo místico de Cristo, em uma pluralidade existencial que se une mediante a fé e a graça em um Salvador único e comum. A unidade e a diversidade são manifestas na cruz do calvário, símbolo da realidade que só pode ser conhecido não por uma linguagem qualquer e comum, mas mediante uma linguagem adequada e própria do verdadeiro significado real da cruz em si mesma. Tal linguagem é a linguagem simbólica, única via de acesso ao entendimento do símbolo. Então, se a linguagem simbólica é a única via de acesso ao plano da totalidade, evidente que chegar ao nível da unidade do Ser só é possível mediante tal linguagem.

Temos aí que, se o símbolo é a forma de representação da realidade, a linguagem simbólica é a via de entendimento dessa mesma realidade, bem como de sua real justificativa. No caso analisado, a realidade é a vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo, Nosso Senhor e Salvador. E a linguagem simbólica, o Verbo Encarnado no Logos do Senhor, mediante o Espírito Santo.

2 comentários:

Cristiano Dionísio disse...

Prezado amigo,
Considero muito pertinente sua abordagem. Os símbolos permitem-se a esse papel "ponte" entre unidade e multiplicidade. Vale observar, não obstante, que o símbolo continua sendo passível de interpretação. Ou ainda, o símbolo como abstração, por outro lado, também pode ser abstraído.
Diante disso, não sei como a leitura simbológica pode funcionar sem a fé como fundamento. Para um matemático o símbolo da adição sempre trará o mesmo significado, isso já não acontece com a cruz do cristianismo.
Minha pergunta honesta para avançarmos em tal reflexão: não estaria na fé o significado do símbolo? Grande abraço, Cris.

Marcus Paulo Rycembel Boeira disse...

Prezado amigo e colega Cristiano: tua pergunta é extremamente pertinente.
E a resposta para ela é sim e não. Sim, quando os símbolos passam a ser visões, interpretações, entendimentos e revelações místicas ocorridas a partir de uma poderosa influência do Espírito Santo na vida da pessoa. Nesse caso, o entendimento simbólico perpassará a fé em um Deus vivo, que participa realmente na vida do ser humano.
Porém, quando não há fé, também há uma linguagem simbólica no universo da existência. Por exemplo: o Apóstolo nos fala, em diversas de suas Cartas (Romanos, Coríntios, Gálatas, etc) sobre a mortificação da carne. Na verdade, um fiel cristão não mutila a sua carne, mas mortificá-la representaria não deixar as coisas do mundo escravizá-lo. O símbolo carne seria, nesse caso, a negação da fé, pois indicaria aonde estaria o coração de um infiel.
Outro exemplo: os símbolos de cores,situações reais, até mesmo arquétipos e imagens. São símbolos constitutivos de um grau primário da realidade que não dependem da fé para o seu entendimento.
Poderíamos dizer que a fé é um canal de acesso para um tipo de nível simbólico, qual seja o nível da existência de Deus.
Porém, os símbolos permeiam toda a cosmologia, inclusive a terra, e não apenas o Reino dos Céus.
Os símbolos são, até mesmo, presentes na descrição do inferno, por meio de realidades tais como lago de genna, sheol, foro eterno, lugar do diabo e seus anjos, etc.
Os símbolos,a lém disso, estão na própria constituição da linguagem simbólica, como vias de acesso aos outros símbolos mais elevados.
Os símbolos são as manifestações significativas da exsitência de toda a realidade!
Abraços, Marcus Boeira.