“Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5, 21)
“agora, na consumação dos séculos, uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb 9, 26)
“...se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros conforme a promessa” (Gl 3, 29)
Há um paralelo maravilhoso entre o Pai celestial e o pai das nações (Gn 15, 5). Deus e Abraão figuram como representações paternas extraordinárias desde os primórdios da civilização judaico-cristã. Se Deus é Pai celestial (Mt 12, 50), Abraão representa a figura do nexo entre Deus e a história, como o autor da antiga aliança de circuncisão (Gn 17, 11).
Paralelamente, Abraão foi intimado por Deus para “sacrificar” Isaque- seu filho- a fim de provar sua fé (Gn 22, 2). Deus, muito tempo depois, enviou Jesus, seu amado Filho unigênito, para morrer por mim e por você (Jo 3, 16 e Mc 10, 45). Há um magnífico cruzamento de perspectivas nessa analogia. O elemento antropológico é o mesmo: sacrifício vitimizador, ou seja, a noção de que o Reino de Deus é herança mediante sacrifício. Para Abraão, o sacrifício imperfeito de Isaque. Para os filhos da promessa, mediante o sacrifício perfeito de Jesus. Se antes da primeira vinda de Cristo o sacrifício era carnal, já que para os filhos da carne- ou como diria Paulo-, filhos de Agar (Gl 4, 23), o sacrifício expiatório se realizava mediante os inúmeros holocaustos de animais (Lv 1 e ss), para os filhos da nova e eterna aliança- àqueles que são co-herdeiros com Cristo (Rm 8, 17)- o sacrifício é de si próprio, pois cada um deve negar a si mesmo e carregar a sua cruz (Mt 11, 38).
O legado sacrificial de Abraão indica que a expiação não mais se projeta no outro- como se faziam com os animais sacrificados-, mas se coloca para dentro de cada um de nós, quando aceitamos Jesus e vivemos no Espírito, “sacrificando” a nossa própria carne (Gl 5, 24). Precisamos oferecer o “nosso” Isaque (leia-se: nossa carne) todos os dias, pois o preço de nosso sacrifício eterno, Jesus já pagou na Cruz. Não podemos nos entregar à nossa carne, pois aí, ao invés de nos sacrificarmos, sacrificamos o próprio Cristo, como fizeram os filhos da antiga aliança! Se somos filhos da nova, sacrificamos nossa carne para vivermos no e pelo Espírito que nos foi dado, mediante a cruz de Jesus: pois a letra mata, e o Espírito vivifica! (2 Co 3, 6).
Se na antiga aliança, então, o sacrifício se dava nos animais, pois para o homem viver a lei era impossível na sua plenitude, na nova aliança o sacrifício se deu em Jesus, sacrifício perfeito, pois Ele não veio para ab-rogar a lei, senão cumpri-la e vivê-la na totalidade de sua existência histórica (MT 5, 17), de modo que o pagamento pelas transgressões à lei foi transferido de nós para Cristo, autor de nossa salvação e redentor de nossa condição pecaminosa (Hb 9, 26). Vivemos, a partir disso, não debaixo da lei, mas pela graça e pela fé em nosso Libertador (Gl 3, 10), que desceu até a história para nos levar, com ele, para junto do Pai na meta-história, Reino dos céus!
2 comentários:
Professor Marcus, boa noite. Que lindo artigo. Más me paira uma dúvida quando o Sr: diz não estamos debaixo da lei. Más a graça e a lei não se completam?? Não posso estar na graça e estar fora da lei não é mesmo?? Não estou questionando apenas querendo aprender.
Um abraço,
Amado Ivar: graça e paz. Como vai vc, tudo bem? olha só: quando digo "debaixo da lei", digo no mesmo sentido que Paulo disse em Gálatas, ou seja, de que para aqueles que não estão em Cristo, a salvação só seria possível se a pessoa cumprisse toda a lei, sem falhar nenhuma vez em sua vida. E, como somente Jesus fez isso, é por meio dele que a salvação é estendida a todos que o reconhecem como salvador. Ora, assim, "debaixo da lei" significaria, em sentido figurado, estar sob a condição da lei e não da graça como meio de salvação.
Paz de Jesus, MB.
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