As universidades e os meios acadêmicos de um modo geral, sobretudo no Brasil, acostumados a reduzir as discussões e os debates ao nível da retórica barata e da patifaria lingüística, ensinam aos estudantes menos despertos a cultivarem a canalhice intelectual desde o primeiro momento.
Há três posições possíveis quanto ao assumir nossa condição intelectual: 1) saber que se sabe; 2) não saber que se não sabe e 3) saber que não se sabe. Nas três possibilidades apresentadas, não se buscará aqui a dimensão estética da análise intelectual, senão o estado cognitivo real em que um indivíduo se encontra.
No primeiro caso, temos o exemplo da tradição. Ou seja, os pensadores que se vão incorporando à determinada tradição de pensamento só realmente se incorporam quando possuem um conhecimento acerca dos fundamentos mesmos que constituem a dita tradição. Portanto, sabem que sabem. Ou ainda, alguém que exerce determinada técnica e sabe que sabe como proceder.No segundo caso, podemos colocar boa parte do atual establishment universitário brasileiro. Não falo de todos os professores universitários evidentemente, mas de uma parcela considerável deles. Quer dizer: "não sabem que não sabem", e acreditam saberem certas áreas do conhecimento e certos atributos da atividade cognitiva. Não possuem a menor idéia do que seja isso e falam "como se soubessem". Claramente, mentem para si mesmos, pois acreditam saber algo que verdadeiramente não sabem. No entanto, pelo ofício da profissão e pela vergonha desmedida de serem surpreendidos por outros de estatura intelectual superior, usam de artifícios retóricos e malignos para inviabilizar qualquer forma de contato que possa desmascará-los publicamente. Ademais, formulam certas teses imbecis e sem sentido com certa lógica argumentativa e com termos recolhidos do vocabulário menos acessível apenas para dar uma aparência de cientificidade que, levada às últimas conseqüências, apenas demonstrará que tais teses nada são senão falseamentos e hipóteses retóricas sem um qualquer fundamento substancial na realidade concreta.
No terceiro caso, deparamo-nos com a chamada docta ignorantia. A douta ignorância consiste na sapiência da auto-limitação cognitiva frente à totalidade da realidade aberta para a inteligência humana. No plano filosófico, por exemplo, há o reconhecimento da incompreensibilidade dos elementos ontológicos e substanciais do cosmos. Quer dizer: a totalidade se abre para o conhecimento possível, mas esse conhecimento, por ser apenas possível, jamais alcançará a compreensão completa do todo. Por essa razão, assume-se que se está ignorante frente à uma totalidade aberta para ser compreendida, mas que nunca poderá sê-la por completo, não apenas pelas limitações cognitivas do indivíduo pensante, mas pela própria natureza do Ser. Sócrates demonstrara exatamente isso quando estivera ciente de seu estado cognitivo frente à totalidade do cosmos, sabendo que não sabia. Ou seja, diferentemente dos demais com quem dialogara, ele tinha conhecimento de sua real situação frente ao todo do conhecimento. Assumia, assim, a 'docta ignorantia', não apenas sabendo que nada sabia, como também não "presumindo que sabia algo que, de fato, não sabia". Portanto, a ignorância de Sócrates é sábia, não apenas pelo conhecimento daquilo que ele sabe, mas também pela ciência de que não sabe aquilo que de fato não sabe. É uma sabedoria positiva diante da ausência reconhecida. Diríamos, com Nicolau de Cusa, que "saber é ignorar". Eu mesmo, enquanto escrevo esse mísero artigo, reconheço minhas próprias limitações diante da totalidade de possibilidades de análise existentes acerca do tema tratado aqui, por exemplo.
No plano da chamada "teologia positiva", muito se discutiu a esse respeito no que tange a incompreensibilidade da essência divina. Deus, infinito e incompreensível em sua totalidade, dá-se a conhecer ao homem de forma parcial e contingente, já que a própria estrutura cognitiva do ser humano é demasiadamente limitada frente à infinitude divina. Assim, a docta ignorantia consiste num saber primário sobre nosso próprio estado de incompreensibilidade frente ao mundo misterioso das potencialidades cognitivas. É dizer, uma ciência de nossa ignorância frente à infinitude e, por isso mesmo, docta. Uma sábia ignorância sobre a essência de Deus, como também uma prévia ciência de que o mesmo Deus não pode ser ignorado. Sobre esse tema, Hilário de Poitiers, Basílio de Cesaréia, João Crisóstomo, Gregório de Nisa e Agostinho de Hipona, dentre outros, mostraram, como Sócrates já fizera na Filosofia, a impossibilidade cognitiva de elevar a mente ao plano de Deus para conhecê-lo na totalidade, embora possamos reconhecê-lo misteriosamente na origem de nossa própria possibilidade cognitiva. O próprio Santo Agostinho diz que "Deus é secreto e público ao mesmo tempo: que ninguém pode conhecê-lo tal como é, mas ninguém pode ignorá-lo" (Enarratio in Psalmum). Então, a fórmula da docta ignorantia pressupõe um entendimento sobre a infinitude que se traduz na incompreensibilidade da mesma e, assim, na sabedoria da própria ignorância. "Sei que nada sei", famosa frase dita com freqüência, mas pouco experienciada na vida acadêmica brasileira.
Mais tarde, São Tomás de Aquino e, principalmente, Nicolau de Cusa, analisarão o tema com maior afinco do que os primeiros Padres. O último, autor do fim da escolástica, em sua obra que leva o nome do artigo em questão (Docta Ignorantia), dirá que "a divindade é inteligível de maneira incompreensível", ou seja, Deus só é entendido como Ser impossível de ser compreendido em sua substância. Por isso, reconhecer nossa ininteligibilidade frente ao Divino é um ato de sapiência.
Portanto, a Teologia Positiva e a Filosofia Primeira estão a reconhecer a docta ignorantia como pressuposto para toda e qualquer atividade cognitiva. Hoje em dia, as universidades e os meios acadêmicos de um modo geral, sobretudo no Brasil, acostumados a reduzir as discussões e os debates ao nível da retórica barata e da patifaria lingüística, ensinam aos estudantes menos despertos a cultivarem a canalhice intelectual desde o primeiro momento: achar que se sabe tudo para debater e argumentar. Dizem eles que não existe verdade: assim, acreditam que o discurso retórico substancia-se em si mesmo, não prestando contas nem às suas causas nem às conseqüências. A linguagem não requer a "realidade", dizem eles. Então, tudo é possível. Não há padrões morais nem intelectuais objetivos para essa cultura que se instalou. Estão "libertos" para serem estúpidos e falsos. Ao invés de doutos ignorantes, são "ignorantes profissionais": possuem orgulho de "não saber que não sabem".
3 comentários:
Saudações Professor Marcus,
para variar o senhor posta artigos reflexivos. Fiquei intrigado com algumas coisas, mas já me declaro um ignorante, minhas ponderações são a titulo de reflexão, seus pontos de vista sempre me fizeram refletir muito.
Não me considero religioso, muito menos conhecedor do tema, mas a existência de Deus esta pautada na própria fé, ou seja, a existência do mesmo é uma premissa dogmática para se argumentar sobre pontos de vista embasados na religiosidade.
A grande dúvida persiste em estabelecer um diálogo em um contexto multi-cultural onde Cristãos, Islâmicos, Hindus e diversas outras correntes religiosas coexistem. O respeito se torna o elo de convivência pacífico que possibilita uma convivência sadia, mas um contexto acadêmico pode ser um pouco diferente.
Infelizmente o ser humano se trava a retórica barata e a artifícios como o falseamento da realidade para distorcer os fatos e adapta-los para proporcionar uma atmosfera mais favorável, infelizmente essa técnica é utilizada em diversos meios, acadêmicos, políticos enfim, onde imaginarmos, o ser humano irá, de uma forma ou de outra, fazer uso de uma argumentação distorcida para se favorecer. O governo Lula demonstrou pelas bravatas do presidente como isso é possível.
Creio que a arrogância acadêmica é insolúvel, pois esta impregnada nas faculdades federais que, claramente, possuem um apego marxista, esquerdista ou seja lá como denominar tal posicionamento; Esta na vergonha de se dizer que não sabe, como o senhor citou, mas também, na motivação emocional que faz com que o docente opine sobre assuntos sem ter um aprofundamento teórico, simplesmente por ser contra.
Concordo que esta retórica deveria ser reformulada, enobrecida e melhorada, para que a academia seja um local de formação crítica, não seja simplesmente um meio para se obter um diploma. Sabemos que algumas instituições de ensino são direcionadas por "forças ocultas" as vezes não tão ocultas, que desestimulam projetos de relevância social, para defender interesses escusos, desestimulando por consequência, aqueles que estavam engajados em tais projetos.
Forte Abraço Professor Marcus e Feliz Ano Novo.
Rodrigo Moritz Britez.
Saudações Professor Marcus,
Não me considero religioso, muito menos conhecedor do tema, mas a existência de Deus esta pautada na própria fé, ou seja, a existência do mesmo é uma premissa dogmática para se argumentar sobre pontos de vista embasados na religiosidade.
A grande dúvida persiste em estabelecer um diálogo em um contexto multi-cultural onde Cristãos, Islâmicos, Hindus e diversas outras correntes religiosas coexistem. O respeito se torna o elo de convivência pacífico que possibilita uma convivência sadia, mas um contexto acadêmico pode ser um pouco diferente.
Infelizmente o ser humano se trava a retórica barata e a artifícios como o falseamento da realidade para distorcer os fatos e adapta-los para proporcionar uma atmosfera mais favorável, infelizmente essa técnica é utilizada em diversos meios, acadêmicos, políticos enfim, onde imaginarmos, o ser humano irá, de uma forma ou de outra, fazer uso de uma argumentação distorcida para se favorecer. O governo Lula demonstrou pelas bravatas do presidente como isso é possível.
Creio que a arrogância acadêmica é insolúvel, pois esta impregnada nas faculdades federais que, claramente, possuem um apego marxista, esquerdista ou seja lá como denominar tal posicionamento; Esta na vergonha de se dizer que não sabe, como o senhor citou, mas também, na motivação emocional que faz com que o docente opine sobre assuntos sem ter um aprofundamento teórico, simplesmente por ser contra.
Concordo que esta retórica deveria ser reformulada, enobrecida e melhorada, para que a academia seja um local de formação crítica, não seja simplesmente um meio para se obter um diploma. Sabemos que algumas instituições de ensino são direcionadas por "forças ocultas" as vezes não tão ocultas, que desestimulam projetos de relevância social, para defender interesses escusos, desestimulando por consequência, aqueles que estavam engajados em tais projetos.
Forte Abraço Professor Marcus e Feliz Ano Novo.
Rodrigo Moritz Britez.
Mestre,
Primeiramente FELIZ ANO NOVO!!!
Pois bem, seu artigo reflete a pobreza moral de nosso meio acadêmico, a barreira intelectual que buscamos superar em nosso dia-a-dia. Os ilustres "sabichões" de nossas universidades atuam na contra-mão do desenvolvimento humano, seja em qualquer de suas dimensões: intelectual, espiritual e existêncial. Pois desprezam esta integração, de modo a reduzir estas dimensões a uma só: a existencial. Daí esses relativismos de "verdades", daí a arrogância e o amor pelo "não saber que não sabe".
Mas, diante disto tudo, temos uma responsabilidade tamanha e, também, um propósito. Mudar essa realidade. Acredito que seja para isso que aqui estamos!
Não digo isso como mero idealismo, mas como um pressuposto de minha alma, que se angustia por compreender o raio de alcance dessa corrente escrota atuante, que "pensa que pensa e que, por isso, é alguma coisa", quando na verdade se contradiz.
O Rodrigo tocou num ponto interessante: qual seria o ponto de convergência das diversas correntes religiosas espalhadas pelo mundo? Eu não conheço o fundamento da maioria delas, mas acredito que haja um pressuposto de reconhecer a divindade e a necessidade do humano por esta divindade. Porém, é algo que precisaria ser estudado com muito cuidado. Se o senhor tiver uma indicação de um caminho para começarmos a responder essa questão, por favor o faça.
Um grande abraço!
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